A verdade é que o Brasil ainda é um país profundamente marcado pelo machismo, pela misoginia, pelo racismo, pela xenofobia, pela homofobia e pela transfobia. E talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja perceber que esses preconceitos não estão escondidos: muitas vezes, eles aparecem de forma aberta, são defendidos publicamente e chegam às urnas.
É difícil acreditar que uma escolha política possa ser reduzida apenas à corrupção, à economia ou à preferência por um partido. Política também é sobre valores, sobre quais vidas consideramos importantes, quais direitos estamos dispostos a defender e quais grupos aceitamos colocar novamente em uma posição de vulnerabilidade.
Quando alguém diz que rejeita determinado governo por causa da corrupção, mas ignora ou relativiza os mesmos problemas quando eles aparecem em políticos que apoia, existe uma contradição que precisa ser reconhecida. E quando a rejeição a políticas sociais nasce do incômodo de ver pessoas pobres ocupando os mesmos espaços, estudando nas mesmas universidades ou tendo acesso às mesmas oportunidades, talvez o problema nunca tenha sido apenas político.
Bolsa Família, ProUni, FIES, cotas raciais, SUS, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Pé-de-Meia e tantas outras políticas públicas não são apenas nomes de programas. Para milhões de brasileiros, representam comida na mesa, acesso à educação, tratamento de saúde, moradia e a possibilidade de construir uma vida um pouco melhor.
Por isso, é preocupante quando propostas de redução de investimentos públicos, enfraquecimento de políticas sociais, mudanças nos direitos trabalhistas ou cortes em áreas essenciais são tratadas como detalhes secundários de uma eleição.
O fim da escala 6x1, a proteção dos direitos trabalhistas, o financiamento da saúde e da educação, as cotas, os incentivos sociais e tantas outras conquistas não deveriam ser tratados como privilégios. São resultado de décadas de lutas e de decisões políticas que afetaram diretamente a vida de milhões de pessoas.
E existe uma contradição ainda maior quando pessoas que dependem dessas políticas defendem projetos que podem enfraquecê-las. É preciso perguntar: quantas vezes alguém consegue usufruir de uma conquista social antes de deixar de reconhecer que ela também é responsável por melhorar sua própria vida?
Também não podemos ignorar o avanço de discursos que transformam minorias em inimigos. Pessoas trans sendo tratadas como ameaça, mulheres tendo seus direitos questionados, feminismo sendo apresentado como problema, violência contra a população LGBTQIA+ sendo relativizada e políticas de proteção às mulheres sendo colocadas em dúvida não são apenas opiniões políticas.
Esses discursos têm consequências reais.
Quando representantes eleitos defendem restrições aos direitos de pessoas trans, questionam a existência do feminicídio, minimizam o machismo ou apresentam ideias que colocam mulheres e crianças em situações de vulnerabilidade, não estamos diante de uma simples divergência ideológica. Estamos discutindo o tipo de sociedade que queremos construir.
E talvez seja esse o ponto que mais assuste: perceber que muitas pessoas não estão necessariamente escolhendo propostas. Estão escolhendo identidades, ressentimentos, medos e narrativas.
O debate político passou a ser, muitas vezes, menos sobre aquilo que um candidato pretende fazer e mais sobre quem ele consegue transformar em inimigo.
Enquanto isso, problemas concretos continuam existindo: fome, desemprego, violência, desigualdade, precarização do trabalho, dificuldade de acesso à educação e à saúde, desmatamento, corrupção e concentração de renda.
Nada disso desaparece porque alguém encontrou um novo grupo para culpar.
Também é preciso reconhecer a responsabilidade da própria esquerda. Não basta dizer que o povo foi enganado ou que não entendeu o que estava em jogo. Existe uma parcela de responsabilidade em partidos que envelheceram politicamente, que não conseguiram conversar com uma geração formada pelas redes sociais e que, muitas vezes, parecem mais preocupados em defender sua própria história do que em construir uma nova.
Se uma parcela da população deixou de se identificar com determinado projeto político, é preciso entender por quê.
Não basta chamar essas pessoas de ignorantes. Isso pode até aliviar a frustração de quem perdeu uma eleição, mas não explica o resultado. E, principalmente, não ajuda a mudar o futuro.
Ao mesmo tempo, também não podemos transformar o eleitor em alguém completamente isento de responsabilidade. Votar é uma escolha. E escolhas políticas têm consequências.
É possível discordar de um governo. É possível rejeitar um partido. É possível não gostar de Lula, do PT ou de qualquer outro político. Mas existe uma diferença entre discordar de um projeto econômico e apoiar discursos que atacam direitos fundamentais.
Democracia não deveria significar apenas aceitar o resultado das urnas. Também deveria significar compreender que nenhuma maioria deveria ser usada como justificativa para retirar dignidade, direitos ou proteção de minorias.
Talvez o maior erro seja acreditar que retrocessos acontecem de uma vez.
Eles acontecem aos poucos.
Primeiro, uma política pública é apresentada como desperdício. Depois, um direito é chamado de privilégio. Uma minoria é transformada em ameaça. Um trabalhador é convencido de que direitos trabalhistas são obstáculos. A ciência passa a ser tratada como opinião. A educação vira instrumento de disputa ideológica. E, quando percebemos, aquilo que parecia impossível já se tornou normal.
Por isso, mais do que perguntar quem ganhou uma eleição, deveríamos perguntar que país estamos escolhendo construir.
Um país em que direitos são universais ou um país em que eles dependem de quem você é?
Um país em que políticas públicas existem para reduzir desigualdades ou um país em que cada pessoa precisa enfrentar sozinha problemas que são coletivos?
Um país em que diferenças podem coexistir ou um país em que determinados grupos precisam constantemente provar que merecem existir e ter direitos?
É possível perder uma eleição e ainda continuar lutando.
É possível discordar do resultado sem desistir da democracia.
É possível reconhecer os erros do próprio lado sem entregar seus princípios.
E talvez seja justamente isso que precisamos aprender: transformar a indignação em consciência, a frustração em reflexão e a derrota em disposição para construir algo melhor.
Porque um país não é perdido apenas quando escolhe um governo de que não gostamos.
Um país começa a ser perdido quando deixamos de nos importar com o que acontece com quem é diferente de nós.
E, principalmente, quando esquecemos que os direitos que hoje parecem garantidos também já foram, um dia, apenas sonhos de pessoas que decidiram lutar por eles.

