Vinte e um dias para virar o jogo e uma lição que a democracia não nos permite esquecer.
No dia 4 de outubro de 2026, o Brasil realizou o primeiro turno das eleições presidenciais, com doze candidatos disputando a Presidência da República. O resultado foi o seguinte:
Primeiro turno
Flávio Bolsonaro (PL) — 56.104.503 votos
Lula (PT) — 53.879.538 votos
Augusto Cury (Avante) — 3.448.569 votos
Renan Santos (Missão) — 2.675.887 votos
Ronaldo Caiado (PSD) — 2.605.148 votos
Zema (Novo) — 326.448 votos
Samara (UP) — 122.911 votos
Hertz Dias (PSTU) — 43.103 votos
Clariana Barão (DC) — 40.043 votos
Edmilson Costa (PCB) — 22.639 votos
Veterinário Wilson Grassi (Democrata) — 16.881 votos
Rui Costa (PCO) — 15.024 votos
Votos em branco: 2.300.798
Votos nulos: 3.674.249
Abstenções: 33.469.244
Com a vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, parte da direita e seus apoiadores entrou em clima de vitória antecipada. Houve comemorações, projeções de futuros ministros e uma confiança de que o resultado já estava praticamente decidido.
Enquanto isso, a esquerda precisou encarar a realidade: havia uma diferença a superar, milhões de eleitores a conquistar e pouco tempo para mudar o cenário.
Era hora de parar, avaliar os erros, reorganizar as estratégias e voltar à disputa.
Essa movimentação me fez lembrar uma partida de vôlei. Quando o time adversário abre vantagem, o técnico pede tempo. Os jogadores se reúnem ao redor dele, escutam as orientações, identificam os pontos fracos e discutem o que precisa mudar. Ninguém ganha uma partida comemorando o placar antes do apito final. É preciso voltar à quadra e jogar.
Na política, não é diferente.
A direita contava com uma forte presença nas redes sociais, algoritmos capazes de ampliar determinados conteúdos, uma onda conservadora que avançava por países da América Latina e o apoio de setores economicamente poderosos. Ainda assim, a vantagem conquistada no primeiro turno não garantiu a vitória.
O que aconteceu nas semanas seguintes mostra a importância de não subestimar a capacidade de organização, mobilização e diálogo com os eleitores.
O algoritmo pode influenciar o debate nas redes, mas não substitui a conversa olho no olho. Curtidas e compartilhamentos não são votos garantidos. Convencer quem está indeciso, conversar com quem pensa diferente e levar informações para além das bolhas digitais também faz parte de uma disputa eleitoral.
Foi nesse contexto que a mobilização ganhou força. Entre as estratégias que marcaram esse movimento, estavam:
Ampliar a presença nas redes sociais, como X, Facebook, TikTok, WhatsApp e Kwai.
Evitar dar visibilidade gratuita a conteúdos provocativos ou desinformativos por meio de engajamento impulsivo.
Participar de manifestações pacíficas e ocupar os espaços públicos.
Reivindicar os símbolos nacionais como patrimônio de todos os brasileiros, não como propriedade de um único grupo político.
Divulgar informações sobre as propostas, decisões e controvérsias envolvendo os candidatos, sempre com fontes verificáveis.
Incentivar a participação de jovens lideranças políticas que compreendam a linguagem das redes sociais e saibam explicar questões complexas de maneira acessível.
Criar grupos de comunicação para compartilhar informações confiáveis e organizar iniciativas de mobilização.
Responder à desinformação com documentos, notícias verificadas e evidências, em vez de apenas trocar acusações.
Participar de debates públicos e utilizar hashtags para ampliar o alcance de discussões relevantes.
Incentivar o voto consciente e a participação eleitoral.
Compartilhar conteúdos que apresentem propostas, argumentos e informações verificáveis.
Não se tratava apenas de publicar mais. Era preciso comunicar melhor, ouvir as pessoas e transformar o engajamento virtual em participação concreta.
Em cerca de três semanas, a disputa ganhou um novo rumo.
O resultado do segundo turno, realizado em 25 de outubro, foi:
Lula (PT) — 64.256.232 votos
Flávio Bolsonaro (PL) — 59.826.041 votos
Votos em branco: 1.430.496
Votos nulos: 2.723.305
Abstenções: 30.509.005
O resultado mostrou que a vantagem do primeiro turno não era uma garantia de vitória. Uma eleição continua aberta enquanto os votos não são contados e o resultado não é oficialmente definido.
Quando a soberba custa caro
Entre os fatores que podem ter contribuído para o desgaste da campanha de Flávio Bolsonaro, estiveram declarações, atitudes e episódios que geraram controvérsia e levantaram questionamentos entre eleitores.
Entre os casos que merecem ser examinados, estão:
Saúde pública: a declaração atribuída a um possível futuro ministro da Saúde de que o SUS deveria ser tratado como mercado, e não como direito.
Bolsa Família: a fala atribuída a uma possível integrante do futuro governo sobre cortes no programa.
Inteligência artificial no serviço público: a proposta de substituir servidores concursados por sistemas de IA.
Capacitismo: um episódio ocorrido durante uma transmissão da Globo que provocou críticas.
Desumanização do Nordeste: a acusação de que um produtor rural com condições econômicas privilegiadas teria sido apresentado como uma pessoa pobre em um vídeo associado a Nikolas Ferreira.
Ataques a adversários políticos: a declaração atribuída a Pablo Marçal que chamou eleitores do partido Missão de nazistas, justamente quando esses votos poderiam ser disputados.
Ofensas a Belém: manifestações que teriam provocado indignação entre moradores da cidade.
O caso Ana Clara: a controvérsia envolvendo o desconhecimento do nome da mãe da menina.
Rastreabilidade de munições: o debate sobre a retirada de marcações que permitem identificar sua origem.
Racismo e desumanização: o episódio de um apoiador que teria levado uma pessoa negra a se representar como escravizada.
Críticas ao SUS: outra declaração atribuída a um médico cotado para o Ministério da Saúde defendendo que o sistema seria desnecessário.
Esses episódios precisam ser analisados individualmente, com suas respectivas fontes e contextos. Não é possível afirmar, sem pesquisas específicas, quanto cada um deles influenciou o resultado. Mas controvérsias dessa natureza podem ampliar a desconfiança quando atingem temas que afetam diretamente a vida da população, como saúde, assistência social, racismo e respeito à dignidade humana.
Uma campanha não perde apenas por causa do adversário. Ela também pode perder quando suas próprias declarações afastam eleitores, quando demonstra despreparo ou quando age como se já não precisasse convencer ninguém.
A soberba cria a impressão de que o apoio está garantido. E é justamente nesse momento que uma campanha corre o risco de deixar de ouvir as pessoas que pretende representar.
E o que acontece quando eles perdem?
Em meio à polarização política, derrotas eleitorais podem ser seguidas por acusações de fraude, hostilidade e episódios de violência. Quando há agressões motivadas por divergências políticas, elas precisam ser investigadas e responsabilizadas, independentemente de quem sejam os envolvidos.
É necessário, porém, distinguir os responsáveis por esses atos do conjunto de eleitores de um partido ou de uma corrente política. Nem todo eleitor da direita é bolsonarista, assim como nem todo conservador compartilha das mesmas ideias ou aprova os mesmos comportamentos.
Direita e bolsonarismo não são sinônimos. Existem diferenças de pensamento, prioridades e posicionamentos dentro do campo conservador e da própria direita. Reconhecer essas diferenças não significa ignorar os problemas: significa fazer críticas mais precisas e responsabilizar quem efetivamente praticou ou incentivou determinada conduta.
O que não pode ser normalizado é a ideia de que uma divergência política justifica agressões, perseguições ou ameaças. O voto é um direito, e o resultado eleitoral deve ser respeitado dentro das regras democráticas.
Nenhuma vitória autoriza a violência. Nenhuma derrota justifica a perseguição.
A democracia não pode ser dada como certa.
A lição que fica para o Brasil vai muito além de um resultado eleitoral.
Derrotar um projeto político nas urnas pode ser uma etapa importante, mas não encerra a necessidade de defender as instituições democráticas, proteger os direitos civis, combater a desinformação e exigir responsabilização quando houver abusos.
A democracia não se resume ao dia da votação. Ela também depende da participação da sociedade, da liberdade de expressão, do respeito às diferenças, da fiscalização do poder público e da capacidade de cobrar representantes eleitos.
Por isso, a próxima eleição não pode ser tratada como um problema a ser resolvido apenas nas últimas três semanas de campanha.
A organização precisa começar antes. O diálogo precisa acontecer antes. A educação política, a checagem de informações e a construção de espaços de participação precisam fazer parte do cotidiano, não apenas dos períodos eleitorais.
Não podemos esperar que uma crise se instale para começar a reagir. Precisamos aprender a reconhecer os sinais, questionar discursos, comparar fontes e conversar com pessoas que ainda não decidiram em quem votar.
No dia 25 de outubro de 2026, segundo os resultados apresentados, os brasileiros escolheram seu próximo presidente e demonstraram que uma vantagem no primeiro turno não determina necessariamente o desfecho de uma eleição.
Essa experiência pode servir de inspiração para outros países que enfrentam o avanço do autoritarismo, desde que cada sociedade encontre suas próprias formas de mobilização, respeitando sua realidade, suas instituições e suas regras democráticas.
Afinal, não basta vencer uma eleição. É preciso preservar as condições que tornam possível escolher, discordar, fiscalizar e mudar os rumos de um país.
A soberba pode antecipar uma vitória, mas somente o resultado final decide quem vence. E a democracia não se defende em apenas vinte e um dias: ela se constrói e se protege todos os dias.
No dia 25 de outubro de 2026, o Brasil fez história e o mundo aprendeu uma lição com os brasileiros.

